suave e dorido


…Para Sempre…
8 de dezembro de 2008, 3:23 am
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Jurava que tinha câncer de pele, a louca. Mostrava as manchas de sol como prova, mas toda tarde de sábado ia ao samba de saia mesmo, ombros descobertos. Ouvia vozes, assustava-se, espíritos a acompanhavam sempre. Não entendia o que eles queriam e se desesperava. Chorava e chorava. Mas aí vinha um, vinham dois, três amores. Acolhia, esquecia o câncer, os espíritos que a atormentavam e sambava. Sambou até o último sábado. Encarando sua última decepção, a vida lhe sorriu mais uma vez. Agradeceu, absorveu, ocasionou e foi feliz para sempre.

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Chegou depois a outra. Como enfermeira, mãe, amiga. Especialmente amiga. Chegou iluminando, dando a liga, fazendo a gente sorrir. Chegou e ficou. Mais de um ano. Ganhou um quarto só pra ela, encheu as paredes de desenhos, espalhou diversos tipos de papéis por toda a casa. Trouxe o mundo pra perto. Portugal, Cuba, trouxe até a África. Mas foi pelo Bom Jardim mesmo que se apaixonou. Trabalha oito horas por ele e volta sorrindo, dançando, fazendo carinho. Vai, mas vai bêbada. Vai como uma poesia que pega ônibus. Uma pintura que se move entre diversas revoluções internas e contínuas que vão fazê-la feliz para sempre.

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Ele foi a resposta, foi o bálsamo. Morava no alto, via tudo de cima e esclarecia o mundo. Certamente, aprendeu a gerenciar crises, carência, distância. Virou atleta, limpador de piscina, churrasqueiro. Virou amigo. A casa ficou pequena, quis a cidade inteira e agora pedala sobre ela. Vai como um mistério ainda, como quem guarda um tesouro. Vai esperando a outra metade daquilo que é – que escolheu ser – e por quem segura a barra. “Não é possível que no fundo do seu peito, seu coração não tenha lágrimas guardadas”. Vai colher sua amora e vai ser feliz para sempre.



…uma coisa bem simples…
3 de dezembro de 2008, 4:11 am
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Uma sensação de céu – repetia. 
Ela sem entender. Pensou em azul, em infinito, em coisas que não se pode tocar. Lembrou da chuva, de cometa, estrela, da lua, mas era de céu a sensação.
E ele lá, parado, repetindo. Tentou ser mais claro: Sabe êxtase?
Sei, ela disse.
Pois bem: um êxtase, uma sensação de céu. 
Um gozo, um alívio, uma paz? 
Mais para uma imensidão dessas coisas.
Em um beijo só?



…o tempo da delicadeza…
2 de dezembro de 2008, 3:06 am
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Ah, mas a vida da gente é redonda, meu querido. Redonda. Você pensa que vai e tá voltando. É a repetição de sentimentos que quando a gente pensa tê-los esquecido, nos acordam de repente, nos derrubam da cama, riem de nós. A vida da gente é redonda, meu querido. Redonda. 

O menino nunca esqueceu. Comprovou até, tempos depois, a filosofia da avó. Preparou-se.
Repleto de sentimentos bons, entregou-se a eles.
Indo e voltando.



…o chão nos pés…
2 de dezembro de 2008, 2:29 am
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Os jornais empilhados na mesa, não viu as horas.
Uma sirene berrando lá fora, barulhos de cozinha lá dentro.
Uma música bem próxima, ali perto da cama.
O quarto sem poeira, sem sinal qualquer de abandono.
Alguém o cuidava, não lembrava quem.
Após três mudos e longos anos, despertou.

Despertou e foi escrever.